• Thalita Braga

Integração lavoura, pecuária e floresta é a receita para quem elevar os lucros da propriedade, garan


Com sistema de ILPF, Marize Porto passou a fazer quatro safras por ano na mesma área e viu a Fazenda Santa Brígida tornar-se modelo de produtividade no Brasil (Foto: Cristiano Borges)

Que empresário não quer ver seus lucros aumentarem e, ao mesmo tempo, cumprir seu papel de guardião do meio ambiente? Bem, parece que a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) encontrou essa receita há alguns anos, e há quem afirme que a integração lavoura, pecuária e Floresta (ILPF) será a base da revolução agrícola deste século. São mais de 30 anos de pesquisa sobre a técnica, e o que se pode comprovar é que quem implantou o sistema ILPF não se arrepende, seja pela rentabilidade que a diversificação de cultura propiciou, seja pelo ganho ambiental que a modalidade de produção oferece.

Segundo o pesquisador da Embrapa Solos e presidente do Conselho Gestor da Rede ILPF, Renato Rodrigues, entre as vantagens desse sistema estão: a intensificação sustentável do uso da terra, a diversificação da produção, a geração de emprego e renda, a conservação do solo, o melhor uso dos recursos naturais e dos insumos, a redução da pressão pela abertura de novas áreas, o bem-estar animal e também a mitigação das emissões de gases causadores do efeito estufa. “Como a ILPF se baseia em preceitos conservacionistas, como o plantio direto na palha, a rotação de culturas e a recuperação de pastagens, ela contribui para a maior eficiência produtiva e para aumentar a matéria orgânica no solo”, afirma.

De acordo com pesquisa encomendada pela Rede ILPF, o Brasil possuía, em 2016, 11,5 milhões de hectares com alguma configuração de integração de sistemas. O número, em crescimento, é dez vezes maior do que a área ocupada pela tecnologia em 2005. O dado mostra também que o Brasil já cumpriu há três anos a meta estipulada pelo Plano de Agricultura de Baixo Carbono (Plano ABC) em 2009, que era de aumentar em 4 milhões de hectares a área com ILPF até 2020. Com o Acordo de Paris sobre Mudança do Clima, ratificado pelo governo brasileiro em 2016, entretanto, mais 5 milhões de hectares foram acrescentados à meta, com previsão de ser atingida até 2030.

Tecnologia pronta

Em 2006, quando a odontóloga Marize Porto assumiu a gestão da Fazenda Santa Brígida, não sabia dos desafios que a esperavam, mas logo ela descobriu que eram muitos. O primeiro deles foi a distância: ela morando em São Paulo e a propriedade situada em Ipameri (GO). O segundo foi a falta de experiência; como profissional de saúde, havia muito o que se aprender sobre gestão de propriedade rural. E, por fim, não havia dinheiro e nem maquinário para tocar qualquer projeto, mas ainda assim Marize topou o desafio e virou o jogo no qual ela havia entrado com saldo negativo. “Eu tinha três filhos menores de idade, tinha acabado de perder meu marido, a fazenda tinha que no mínimo se autossustentar. Se outras pessoas fazem isso e vivem disso, por que eu não vou conseguir e fazer também?”, conta.

Eram mais de 2 mil hectares de pastos degradados e infestados de cupins. A primeira medida foi realizar um levantamento de quanto custaria a recuperação dessa área, e foi na ponta do lápis que Marize concluiu que, do modo convencional, o custo não caberia no orçamento. “Era uma coisa cara e com retorno a longo prazo, não tínhamos tempo e nem dinheiro. Então foi quando resolvemos procurar a Embrapa em busca de uma solução, foi quando conhecemos os pesquisadores Romero Aidar e João K, que nos apresentaram uma tecnologia pronta: o ILPF”, relembra.

A produtora lembra que na época a proposta do projeto era de que a agricultura pagaria todos os custos da produção e de que a nova pastagem sairia de graça. “De repente o que era bastante caro, que era a recuperação das pastagens, estava saindo de graça. Meu primeiro pensamento foi: se esse projeto é tão fantástico assim, por que ninguém faz? Qual o problema? A resposta me surpreendeu: ‘falta conhecimento da tecnologia aos produtores’. Decidi não hesitar mais e apostei na novidade”. Marize conta que, no início, ela não tinha máquinas, não tinha força de trabalho, não tinha conhecimento nem dinheiro, e, para desenvolver o projeto sugerido pela Embrapa, chamou um vizinho para ajudá-la. Como moeda de troca, ela arrendou parte da fazenda para ele, que logo cuidou do preparo do solo, plantou e colheu. “Nesse primeiro plantio eu só comprei os insumos, e meu vizinho cuidou de todo o resto. Ao final da colheita eu paguei as contas e o que a Embrapa havia me prometido foi cumprido, o pasto estava lá, exatamente como me foi garantido. Pastagem de primeiro ano e de graça, porque a agricultura pagou todo o custo”, afirma.

Marize iniciou o projeto plantando soja e milho em consórcio com a braquiária, que, segundo o pesquisador da Embrapa, João K, é fundamental em qualquer sistema de integração, visto sua capacidade de enraizamento no solo. E, a partir do terceiro ano, o eucalipto foi inserido no processo, fechando o ciclo de ILPF. “O eucalipto tem três funções muito interessantes: econômica, quando eu faço a venda da madeira; sombreamento para o gado, proporcionando mais conforto para o animal; e o efeito ambiental, porque o eucalipto sequestra e fixa o carbono (CO2), inclusive capturando os gases emitidos pelos animais que causam o efeito estufa, equilibrando, assim, o CO2 nesse sistema”, conta.

Mas a lucratividade do sistema não para por aqui. A produtora rural destaca a participação da pecuária no projeto de integração. Segundo ela, a tecnologia permite a produção de um boi barato, conforme as variações anuais. “Quando eu engordo um boi dentro do sistema de ILPF, a arroba do boi me custa uma média de R$ 57; já quando eu não conseguir engordar o boi a pasto e preciso levá-lo para o confinamento, essa arroba já passa a custar R$ 88”. Marize lembra que antes do ILPF, em que os animais tinham uma oscilação de peso por conta das pastagens ruins, o custo de produção por arroba chegava a R$ 105, o que levava à diminuição dos lucros de forma significativa.

Além de todas as vantagens citadas, Marize destaca que o ILPF é considerado um sistema “poupa-terra”. “Na mesma área em que eu [WdC2] produzo agricultura, pecuária e floresta, eu economizo, em relação a um vizinho que utiliza o sistema convencional, seis vezes a terra. Ou seja, ele precisa de seis vezes mais terra para produzir o mesmo que eu. Esse é um dado comprovado por estudos da Embrapa em parceria com a Unesp, que avalizam a importância do ILPF para ampliação da produção sustentável no país”, destaca.

Tem boi na várzea

Final de outubro e o volume do Rio Paranã segue caudaloso no nordeste goiano. Diferentemente de outros tantos rios que, devido à estiagem de 2017, praticamente secaram, em Flores de Goiás os produtores de arroz irrigado não sofreram os efeitos da seca. É o que afirma o presidente da Associação dos Arrozeiros e Irrigantes do Vão do Paranã, João Alexandre Jorge Filho, que também é engenheiro agrônomo e produtor rural. Segundo ele, embora inacabado, o Projeto Flores de Goiás, que já construiu duas barragens de sustentação no Rio Paranã e no Rio Porteira, garante a água para os produtores a jusante do barramento o ano inteiro. “Nós deixamos as comportas fechadas o máximo de tempo possível, para reservar água para o período de seca. Esse ano, por exemplo, nós deixamos as comportas fechadas até julho, e abrimos a segunda comporta no final de agosto, por isso não tivemos nenhum problema com falta d’água”. João conta que o controle de abertura das comportas acontece pela Superintendência de Irrigação da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado de Goiás (SED) e pela Associação dos Arrozeiros, com a manutenção delas sendo de responsabilidade dos produtores.

Mesmo com a abundância de água, os agricultores da região enfrentam um problema que é típico da região: a falta de condutividade hidráulica do solo. Isso impede que seja feita mais de uma safra por ano. Segundo o engenheiro agrônomo e assessor especial da SED, Vitor Hugo Antunes, diferentemente de Luiz Alves, em que a irrigação é feita por ascensão capilar, no município de Flores de Goiás o solo é muito fino, e, após ser encharcado, não consegue mais absorver água, por falta de poros que permitam a infiltração. “Já fizemos experimentos com soja, milho e sorgo, mas nenhuma das culturas atingiu a produtividade necessária para cobrir os custos de produção”, afirma Antunes.

Sem sucesso com os experimentos de uma segunda safra, o produtor João Alexandre optou pela integração lavoura-pecuária na Fazenda Poções, uma atividade que já estava na família antes mesmo da agricultura, e que agora é garantia de lucratividade na propriedade. “Inicialmente minha família trabalhava exclusivamente com pecuária, até que o cultivo de arroz chegou na região e meu irmão, em 1991, arrendou parte da fazenda para rizicultura. Foi então que copiamos uma tradição comum no Rio Grande do Sul, que é o aproveitamento da resteva da cultura para engorda do gado, logo que o agricultor tirava o arroz”, lembra. Ele conta que, após a colheita do arroz, sobra um volume de cultura muito grande sobre a área, e esse volume atrapalha o próximo plantio, além da ocorrência de rebrota. “Para que não rebrote e caia o grão, reinfestando a área, é preciso fazer um controle dessa rebrota, que pode ser via física, com gradeação ou rolo-faca; via química, com dessecação; ou você resolve ganhar dinheiro integrando a pecuária, gerando mais empregos e renda”, garante.

João Alexandre conta que tanto o clima quanto a disponibilidade de água propicia o plantio de arroz o ano inteiro, que começa a ser plantado em julho e vai até o início de março. “Com isso, conseguimos escalonar plantio, irrigação, mão de obra, colheita, tudo para que a área seja melhor aproveitada”. Após a secagem de Flores, a produção do João segue para Goiânia e Anápolis, para ser beneficiada e distribuída em todo o estado, garantindo o grão na mesa de milhares de goianos.

Para o produtor, os custos de produção são um dos motivos que mais têm desmotivado os arrozeiros a continuar na atividade. Segundo João, hoje o agricultor consegue comercializar a saca de arroz de 50 quilos por, em média, R$ 45, não deixando margem de lucro para quem produz. “É preciso ter uma produtividade alta para que o arroz pague os custos de produção, e, no nosso município, só conseguimos atingir a média de 7.300 kg/ha graças à irrigação”, afirma.

Rede ILPF

No final de 2017 o Brasil participou da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, a COP 23, que aconteceu em Bonn, na Alemanha. Foram apresentados os avanços alcançados por meio da adoção de sistemas de ILPF, que é uma das tecnologias que faz parte do Plano ABC, além do projeto “Programa de Segurança Alimentar e Nutricional, Valorização do Campo e Tecnificação da Agricultura Tropical: ILPF, a alternativa para a agricultura do amanhã”. A proposta prevê ações para os próximos dez anos e busca captar US$ 1 bilhão junto a instituições internacionais. “A nossa ideia é implantar 1 milhão de hectares de ILPF dentro de um programa de certificação reconhecido internacionalmente até 2025, com uma meta inicial de 300 mil hectares até 2020, condicionada à captação de recursos internacionais. O que vamos buscar agora é fazer esses acordos internacionais por meio de green bonds (títulos verdes) para conseguir o orçamento total do programa”, explicou o pesquisador Renato Rodrigues.

Renato detalha que o programa é composto por oito eixos que englobam desde ações para certificação de propriedades que adotem os sistemas ILPF até ações que fomentem a assistência técnica e incentivem a adoção da tecnologia. Também entram no programa ações de comunicação e de valorização da agricultura brasileira e a transferência de tecnologias de ILPF para a África, a América Latina e o Caribe.

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