• Thalita Braga

Jovens de três cidades goianas contam porque escolheram investir no setor de agricultura irrigada em


Seja no campo, seja na cidade, uma das grandes preocupações de um empresário é a sucessão do seu negócio. Não basta construir uma empresa de sucesso; é preciso que alguém dê continuidade aos projetos e faça com o que o negócio prospere, abra novos mercados e se adeque às novas tecnologias. Foi preocupado em cuidar dos negócios da família que no ano de 2005, Júlio César Priori, com apenas 16 anos, resolveu deixar os pais e os irmãos na cidade de Jataí (GO), e ir para Piracicaba (SP), iniciar seus estudos em engenharia agronômica. Cinco anos depois estava de volta e cheio de planos para propriedade da família. O principal deles: a vontade de expandir a produção agrícola.

Com o alto custo das terras na região de Jataí, Júlio passou a buscar formas de aumentar a produção na área que já era da família, e foi aí que decidiu investir em irrigação. “Visitei alguns produtores na região de Jataí e de Cristalina para conhecer modelos de já estavam dando certo, também busquei auxílio técnico com um especialista em irrigação (professor), e optei pela instalação de quatro pivôs centrais. Logo na primeira safra eu tive certeza de que havia feito um investimento certeiro”, conta. Júlio viu não só a produtividade crescer, como também passou a ter segurança na colheita da safra. “Irrigar é ter a garantia de que, mesmo que a chuva falte, haverá boa colheita”.

A partir da primeira experiência com a irrigação no ano de 2013, a família Priori, que até então produzia em 2,2 mil hectares de sequeiro, passou a irrigar 275 hectares, produzindo soja, feijão e milho. Júlio conta que o principal entrave para aumentar a área irrigada continua sendo a obtenção de outorgas na Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Secima), órgão responsável pela emissão do direito de uso da água. O agricultor aguarda liberação outorga para irrigação de 160 hectares há mais de três anos, e mesmo contanto com o apoio técnico de uma empresa especializada nesse tipo de atividade, o processo no órgão estadual é moroso.

Além da produção irrigada, Júlio César e o irmão Paulo Ricardo, conduzem junto com o pai, Luiz Paulo Priori, uma empresa de sementes e defensivos na cidade de Jataí. Para o patriarca da família Priori, que veio para Goiás em 1984 com objetivo de produzir alimentos, ver os dois filhos agrônomos é uma realização. “O Júlio cuida da lavoura, eu e o Paulo cuidamos do armazém, e é importante que eles façam parte do negócio porque é preciso pensar em sucessão. Ninguém vive para sempre”, diz. Entre os projetos de inovação, o empresário faz planos para implantação de energia solar e garante que o futuro é de quem investe em tecnologia.

Tradição Familiar

Na cidade de Santa Helena de Goiás, a Família Merola foi pioneira na instalação de irrigação no ano de 1978. Ricardo Merola lembra que o negócio começou com o avô, Misael Rodrigues de Castro, em 1933. Anos depois (1958) passou para o seu pai, Antônio Merola. Em 1976 foi a vez de Ricardo deixar o Rio de Janeiro, onde havia se formado engenheiro mecânico, para assumir a fazenda. “Como eu era de outra área, passei a estudar muito sobre maneiras de melhorar a produção na propriedade do meu pai. Passamos a cultivar arroz e milho, e com uma parceria com a Embrapa Arroz e Feijão, iniciamos a produção de sementes”, conta.

Foi a partir da parceria com a Empresa de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) que o agricultor abriu a primeira área irrigada de feijão. “Naquela época, por sermos pioneiros, não faltava nem energia elétrica e nem água para irrigação. Começamos com uma área de 60 hectares irrigados por autopropelido (canhão). Em pouco tempo essa área chegou a 700 hectares e passamos a produzir sementes de sorgo e milho também”, lembra Ricardo. Para a ampliação dessa área foi preciso também a construção de represas para armazenamento de água. O interesse em produzir mais e melhor levou o produtor rural até o estado do Paraná, em 1982, para conhecer a técnica de plantio direto.

Segundo Ricardo, a opção por plantio direto trouxe para sua propriedade uma série de benefícios que contribuíram para a melhoria da produção. “A primeira vantagem foi a agilidade com que se pode começar uma nova cultura após a colheita. Também conseguimos eliminar uma praga muito comum em Goiás, a Tiririca, que estava se alastrando pela área de plantio”, conta. Ele destaca também que a prática de plantio direto é essencial para a conservação do solo, uma vez que diminui o risco de erosões e retém umidade, garantindo a economia de até 30% de água na hora de irrigar.

Com os negócios crescendo, no ano de 2012, Ricardo decidiu que era hora de passar a condução da Fazenda Santa Fé para seu único filho, Pedro Merola. Formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) em engenharia agronômica, Pedro havia sido criado na propriedade em Santa Helena de Goiás até os 12 anos, quando foi estudar em Uberlândia (MG), e, posteriormente, em Piracicaba (SP). Sempre envolvido com os negócios da família, em 2008 o jovem empresário assumiu o cargo de CEO da Fazenda Santa Fé e passou a investir pesado em tecnologia e melhoramento da produção.

Hoje, com 2,2 mil hectares irrigados, Pedro Merola, que está na quarta geração da família de agricultores, afirma que sua maior preocupação é garantir um negócio sustentável. “O meu negócio sempre foi prestar serviço. Como minhas fazendas têm muita água, todos os projetos desenvolvidos, tanto na área de pecuária, quanto na área de agricultura, foram pensados para assegurar a sustentabilidade da propriedade a longo prazo”, assegura.

O produtor rural prevê a expansão da irrigação no Estado e acredita que o investimento é rentável, mas alerta para o planejamento na hora de fazer o projeto. “A concorrência para se obter outorga de uso de água vai aumentar muito nos próximos anos. Quem quer irrigar precisa estar atento a todas as exigências que a atividade exige. Com o tempo vai se provar que a irrigação é muito viável. No meu caso, a irrigação é uma paixão que eu aprendi a gostar desde pequeno”, afirma.

Sem frescura

Mulher, bonita e jovem. Essas são três características que qualquer pessoa que chega na fazenda do José Martins, em Campo Alegre (GO), logo percebe ao conhecer seu braço direito nos negócios, sua filha Jaqueline Martins. O que muitos não imaginam é que a função dela não é dentro do escritório da fazenda. Com apenas 22 anos, Jaqueline, que cursou faculdade de Administração, optou por ficar longe do ar condicionado para cultivar a terra junto com o pai, o irmão e os tios. Mesmo enfrentando muito preconceito, até pelos próprios funcionários da fazenda, a moça provou que o lugar dela seria onde ela quisesse e não fugiu do trabalho pesado.​

A história da Família Martins tem início em 1986, quando surgiu a oportunidade de um grupo de 30 colonos do sul do país virem para Goiás, por meio do Projeto Paineiras, do Programa de Cooperação Nipo-Brasileira para o Desenvolvimento dos Cerrados (Prodecer) – um projeto geopolítico de incentivo ao desenvolvimento do Cerrado para produção de alimentos, entre os governos do Brasil e do Japão. Sem medo de trabalho, José e um irmão deixaram parte da família no Sul e vieram desbravar o território goiano. Eles, que já trabalhavam com agricultura como funcionários de uma fazenda no Paraná, receberam uma proposta dos patrões, que inicialmente parecia uma nova oportunidade de melhoria de vida. “Vocês vão abrir novas terras em uma fazenda em Goiás, eu vou colocar a propriedade no nome de vocês e o que nós produzirmos vamos dividir, uma parceria”, lembra o produtor. Mas, ao chegar em Goiás, as coisas não saíram exatamente dentro do combinado.

Depois do financiamento aprovado no banco e de três anos de trabalho árduo cultivando soja, o, até então, empregador de José desapareceu, deixando apenas dívidas do empréstimo para a família, que a essa altura já tinha vindo toda para Goiás. Foi nesse momento que José decidiu não desistir. “Foi muito trabalho, recomeçamos do zero, nunca esbanjamos nada e com a graça de Deus colocamos o lote 25 para gerar renda de novo”, conta.

No ano 1993, José decidiu investir em irrigação e de lá pra cá os investimentos só aumentaram. Ele reconhece a importância desse tipo de manejo para a produção agrícola. “Irrigação significa a sobrevivência de um agricultor, plantar em Goiás dependendo só de chuva é muito difícil se manter”. Jaqueline lembra que no início, por falta de tecnologia, muitas vezes ela, o pai e o irmão não tinham hora para começar e nem para parar de trabalhar. “Quantas vezes nós saíamos de casa de madrugada ou tarde da noite para ligar e desligar os pivôs. Sem automação era tudo manual, felizmente os tempos são outros, e graças à tecnologia tudo ficou mais fácil”, conta.

Não houve dificuldade que desanimasse a Família Martins de seguir o sonho de ampliar a produção, hoje os 11 membros da família cultivam uma área de 4 mil hectares, dos quais 700 são irrigados. Alho, batata, milho doce, beterraba, feijão. Nem para cursar a faculdade, Jaqueline deixou de ajudar na fazenda. E os sonhos do pai e da filha passaram a se misturar: estabilidade, diversificar o negócio, ampliar a produção agrícola. Quando perguntada sobre o futuro Jaqueline afirma: “quero aumentar o que já conseguimos e administrar o que já temos com a mesma eficiência que o meu pai sempre teve”. “Quem olha a história dele, a nossa história, reconhece que ele é uma referência para todos os produtores do Projeto”, diz Jaqueline.

José não esconde o orgulho dos filhos e também já ensina para o neto, Nicolas Martins, de 6 anos, o gosto pelo cultivo da terra, deixando um questionamento: “Se não houver sucessão, quem vai dar continuidade à agricultura? Quem vai produzir alimento? Se não fosse a certeza de que meus filhos darão continuidade ao nosso negócio, qual seria o significado de continuar investindo e trabalhando?”.

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